Desconstruindo o mito do Jeca Tatu
04 Oct 2011
Há 100 anos, José Bento Monteiro Lobato se mudava para a fazenda herdada de seu avô, em Buquira, Vale do Paraíba, no interior de São Paulo. Lá, o criador das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo viveu na fazenda de cultivo de café entre 1911 e 1917. Neste período, a agricultura fez parte da vida do escritor. E, entre os seus livros está o clássico Urupês (1918), que traz a figura do Jeca Tatu.
| Foto em destaque: Fazenda Buquira, onde Monteiro Lobato morou e começou sua carreira literária |
Pesquisador e um dos maiores conhecedores da obra de Lobato no Brasil, Léo Pires afirma que “em Urupês, o Jeca Tatu representa atraso, doença, incapacidade. Mas, de acordo com o próprio Lobato, ele [o personagem] ‘não é assim, ele está assim’”. Na obra, Jeca é um sujeito “despreocupado com o solo, que queimava o resto da colheita anterior para o cultivo do próximo plantio. Não havia conhecimento, educação”, explica Pires.
Outro especialista da obra de Lobato, Oiram Antonini, que trabalha na biblioteca Monteiro Lobato, na capital paulista, conta que o escritor tinha suas raízes no campo. “Inclusive, ele criou seus três filhos na fazenda.” Diante da experiência de Lobato como agricultor, Antonini explica que por meio do personagem, “o escritor buscou alertar a sociedade para a miséria em que o homem do campo era submetido naquela época”.
Maria Lúcia Ribeiro Guimarães define sua profissão como professora alfabetizadora, e hoje reside na antiga fazenda de Monteiro Lobato, apelidada de “o verdadeiro Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Para ela, o escritor teve coragem de expor um cidadão que não é só o rural.“O Jeca Tatu está em toda a sociedade.”
Segundo Maria Lúcia, com esta crítica, Lobato procurou mostrar que o Brasil “com saúde e educação é possível melhorar, e muito, uma pessoa”. No começo, o Jeca Tatu estava doente, “sua saúde física e emocional estava debilitada. Mas depois de tratado, medicado e curado, ele era outro homem”, diz a professora.
Em seguida, já na fase sadia do personagem, ele foi divulgado no boletim “Jeca Tatuzinho”, resultado de uma parceria do escritor com o Laboratório Fontoura. Durante 40 anos, a publicação foi distribuída gratuitamente em farmácias de todo o Brasil. Ao todo, “foram aproximadamente 100 milhões de exemplares”, assinala Antonini.
Pires ressalta que o Jeca Tatu foi inspirado nas condições do homem do campo daquela época, que não tinha os cuidados que merecia. “Mas, Lobato mostrou a situação e sugeriu soluções para o problema.”
Rui Barbosa também utilizou a figura do Jeca Tatu para denunciar o descaso do governo brasileiro para com as populações mais humildes, registra trecho da obra “Guia Turismo Rural – São Paulo” (Empresa das Artes, 235 páginas).
No cinema
Secular, a figura do Jeca Tatu está presente no imaginário popular, fruto da repercussão na literatura, dos milhões de boletins, e também da interpretação cinematográfica de Amácio Mazzaropi.
O ator, nascido na capital paulista e crescido no Vale do Paraíba, interpretou o personagem de Monteiro Lobato, que estreou no cinema em 1960. Uma sequência de 32 filmes faz parte da carreira de Mazzaropi, e muitos têm no título “o Jeca”, como, por exemplo, “Uma Pistola para o Jeca”, sucesso de bilheteria, que rendeu ao ator um prêmio do Instituto Nacional de Cinema (INC) daquela época.
Na opinião de Pires, saúde e educação de boa qualidade são fundamentais para o Brasil, e Lobato colaborou em disseminar esta mensagem. Maria Lúcia é incisiva. “Sabe quantos Jecas Tatus existem no Brasil? Milhões! Mas, nós temos condições de mudar isto. Lendo, estudando, cuidando da saúde!”
O fato é que a crítica de Lobato às condições sociais naquela época rende polêmicas até hoje. Todavia, a importância do escritor também já lhe rendeu homenagens. Desde 1949, o distrito paulista, antes chamado Buquira, leva o nome de Monteiro Lobato.
Fonte: Sou Agro